CATUTI (01/04/2019) – O produtor José Alves de Souza, mais conhecido pelo apelido de Zé Brasil, conhece a cultura do algodão desde os sete anos, quando acompanhava o pai no plantio de sequeiro e os tratos culturais da lavoura, em Catuti, município do Norte de Minas. Houve um tempo, quando chovia bem, que a colheita rendia até 230 arrobas por hectare. Com as intempéries climáticas e a irregularidade das chuvas que caracteriza o semiárido mineiro, a produção da família foi caindo, chegando a praticamente zero. “Houve ano em que aumentei a roça e colhi bem menos, num alto e baixo de produtividade, que dependia da vontade de Deus em mandar chuva”, relembra Zé Brasil.

O uso de tecnologias, como a irrigação por gotejamento, tem garantido aos produtores a boa produtividade antiga do algodão cultivado em sequeiro, sem a dependência exclusiva das condições climáticas. O trabalho de irrigação de salvamento das lavouras é uma ação do Governo do Estado, dentro do Programa Mineiro de Incentivo à Cultura do Algodão (Proalminas) e desenvolvido em parceria com a Associação Mineira dos Produtores de Algodão (Amipa).

O projeto de retomada do cultivo do algodão no Norte mineiro envolve 126 agricultores familiares de 12 municípios com ligação tradicional com a cultura. “Como a região tem um período curto e concentrado de chuvas, o objetivo da irrigação de salvamento é garantir a oferta de água nos períodos críticos de seca, evitando o estresse da planta que compromete a sua produtividade”, explica o Superintendente de Desenvolvimento Agropecuário da Secretaria de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa), Carlos Eduardo Bovo. Técnicos da Emater-MG na região vêm recebendo treinamentos para certificação da produção pelo programa Certifica Minas.

O trabalho vem sendo desenvolvido há três anos na região com o apoio das prefeituras que custeiam a escavação dos tanques, onde são realizados a captação e o armazenamento das águas de chuva. O Proalminas financia a aquisição dos kits de irrigação por gotejamento e a manta para a cobertura do solo. Algumas propriedades ainda contam com energia solar para o funcionamento do conjunto de irrigação.

Tanque

Num total de nove hectares de algodão, o produtor Zé Brasil manteve oito hectares no sistema de sequeiro e investiu no sistema de irrigação em um hectare. O seu tanque tem capacidade para armazenar um milhão de litros da “água que vem de cima”, utilizada na irrigação de salvamento, apenas nos períodos críticos, e não em todo o ciclo. Sua produtividade média subiu de 15 para 150 arrobas por hectare e ele já tem planos para o futuro. “Diminuir a roça e aumentar a produção – exatamente o contrário do que vivi nos tempos de dificuldade. Com a área livre ainda posso investir numa criação de gado e diversificar a renda da propriedade”.

É também a expectativa do Presidente da Cooperativa dos Produtores Rurais de Catuti, Adelino Lopes Martins, conhecido como Dila. “Com a organização do plantio, as adubações corretas em todas as fases e a irrigação por gotejamento, a expectativa é atingir produtividade média de 350 arrobas por hectare, aquecer o grupo e ter mais produtores investindo na cultura na próxima safra”.

As lavouras irrigadas são áreas pequenas, mas a atividade tem grande impacto socioeconômico como fonte geradora de renda e emprego, numa região onde são poucas as culturas que resistem aos períodos de seca. O algodão é uma cultura tradicional na região pela sua resistência, mas foi abandonada pelos produtores anos atrás em função do ataque do bicudo.

A fase agora é de retomada e fortalecimento, com o uso de tecnologias modernas, como o manejo de irrigação e o controle biológico para o combate às pragas do algodão, que também pode ser usado no controle de pragas de outras culturas, como o milho. Segundo o prefeito de Catuti, José Barbosa Filho, o bom resultado da experiência tem atraído o interesse de países africanos e sul-americanos. “A agricultura familiar gera emprego e renda, mantém o homem no campo e fortalece a economia de toda a região”, avalia.

Beneficiamento e Comercialização

Com o apoio do Proalminas, da Amipa e a organização dos produtores, um outro obstáculo para o fortalecimento da atividade foi vencido. O algodão dos pequenos produtores é comercializado diretamente na indústria têxtil. “Uma coisa impossível de se pensar 30 anos atrás, quando o produtor vendia para o atravessador ou mesmo para um usineiro que beneficiava a produção”, afirma o técnico agropecuário da cooperativa, José Tibúrcio de Carvalho Filho.

Miniusina

Atualmente, o algodão é beneficiado numa miniusina instalada no município de Mato Verde, que também participa do projeto de retomada do algodão no Norte de Minas. A capacidade de processamento é de 1,5 mil toneladas por ano e recebe o algodão de todos os produtores da região, independente do volume. De cada fardo de 200 quilos prensado e beneficiado, é retirada uma amostra para a aferição da qualidade. “Essa amostra é enviada para o laboratório Minas Cotton da Amipa, em Uberlândia, onde é feito o Laudo de HVI (High Volume Instrument), que identifica as características intrínsecas da fibra do algodão. O resultado desse laudo é exigido para a comercialização com as indústrias têxteis”, explica o engenheiro agrônomo da Amipa, José Lusimar Eugênio.

O preço negociado segue a cotação do mercado e, por meio do Proalminas, o produtor tem um acréscimo de 7,85% no valor. As indústrias têxteis que participam do programa têm assegurada uma isenção de 41,66% do crédito presumido de ICMS ao adquirirem o algodão certificado dos produtores mineiros. Com o benefício fiscal, a indústria destina 1,5% dos recursos ao Fundo de Desenvolvimento da Cotonicultura (Algominas), cujos investimentos permitem renascer a esperança do produtor Zé Brasil, do Dila e de todos os agricultores familiares no Norte de Minas, que já presenciaram o auge, a decadência e agora apostam na retomada da cultura do algodão como fonte geradora de renda e emprego na região situada nos limites da Serra Geral. 

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