BELO HORIZONTE (5/7/2019) – O retrato do setor agropecuário brasileiro - com base em dados preliminares do Instituto Brasileiro de Estatística e Geografia (IBGE), do Censo Agropecuário de 2017 - e a apresentação de um estudo sobre a evolução do PIB da agricultura familiar e não familiar, entre 2006 e 2015, estão entre os principais temas apresentados e debatidos, nesta quinta-feira (4/7), na sede da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais (Emater-MG), em Belo Horizonte. A iniciativa aconteceu durante o 2º Seminário de Avaliação de Impactos de Políticas Públicas no Setor Rural, promovido pela Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa).

Direcionado a um público composto por técnicos dos órgãos vinculados à Seapa, representantes de entidades públicas e privadas, e estudiosos e pesquisadores de instituições acadêmicas, ligadas ao setor agro, o evento é mais um da série que deverá acontecer mensalmente, durante 2019. O objetivo é formar, ao final do ano, um grupo para discutir variados assuntos ligados ao setor agropecuário.

“A proposta é criar um núcleo especializado na temática rural, para pensar as estratégias do agro mineiro. Esse é um momento para discutir prioridades e aplicar melhor os recursos. É um momento para criar um espaço e uma rotina, avaliando o que é o mais importante para produtores e consumidores, por exemplo, e qualificar a participação da política pública”, explica o superintendente de Desenvolvimento Agropecuário da Seapa, Carlos Bovo.

O seminário foi aberto pelo diretor-presidente da Emater-MG, Gustavo Laterza, que recepcionou convidados e palestrantes, e se retirou para outro compromisso, sendo substituído pelo diretor técnico da empresa, Feliciano Nogueira. A Seapa foi representada pelo subsecretário de Política e Economia Agrícola, João Ricardo Albanez, ressaltando a importância da avaliação das políticas públicas.

Destaques do Censo Agro 2017

Entre os destaques do Censo 2017, que abrangeu o período que vai do final de 2016 a meados de 2017, o coordenador do Escritório de Processos do Mapa, Renato Rocha, chamou a atenção para a expansão na produção animal do país, principalmente aves e suínos. Já os bovinos não tiveram o crescimento esperado, embora a produção de leite tenha aumentado em 60%.

Na cultura do café, principal produto da agricultura mineira, o crescimento foi de cerca de 20%, contrastando com a estabilidade da cafeicultura verificada no país. Minas é o maior produtor nacional do café arábica, com 80% da produção do país. Outra informação de relevância apontadas pelos números do IBGE foi a maior participação de mulheres na direção de estabelecimentos, passando de 12,7% para 18,65 %, principalmente no Nordeste. E, segundo Rocha, acompanhando uma tendência geral da população urbana, o homem do campo também está envelhecendo mais. Na faixa de 65 anos ou mais, o salto foi de 17,52% para 21,41%, e isso vem acompanhado pela saída de jovens para centros urbanos.

Vale destacar também o aumento das áreas irrigadas, em 52%, comparado ao Censo de 2006; crescimento da produção orgânica em 30%; crescimento de assistência técnica e extensão rural (Ater) mais especializada, junto às cooperativas e acesso do produtor à Internet em 1.790,1%.

PIB agropecuário

Embora a agricultura familiar tenha perdido 10% na composição do PIB agropecuário (antes de 35% agora 25%), o pesquisador da Escola Superior de Agricultura Luiz Queiroz (Esalq), Alberto Barreto, explicou que isso é um valor relativo, pois em números absolutos esse segmento rural praticamente dobrou sua participação.

“ Houve um crescimento de quase 100% no valor absoluto. A agricultura familiar contribuía com R$ 35 bilhões do agropecuário. Hoje, após dez anos, está em torno de R$ 70 bilhões. Ela perdeu participação, mas isso se explica pelo fato de a agricultura familiar não expandir a área. Esse segmento depende de uma expansão da produção via aumento de produtividade”, justifica.

Para o estudioso, a economia brasileira precisa reconhecer a importância da agricultura familiar, tornando-a mais digna de investimentos. “ A agricultura familiar cresceu muito, isso precisa ficar claro para entender o que significa a importância do valor absoluto e do valor relativo. A agricultura familiar gera muito valor em cadeias chaves para a agropecuária brasileira, tais como leite, café, aves, suínos, bem como feijão, mandioca (80% vem da agricultura familiar). É isso que vai se manter no futuro”, prevê.

Barreto chama a atenção, ainda, para a questão da competitividade dos produtos da agricultura familiar. “ A agricultura familiar está restrita em áreas diminutas, menores que quatro módulos fiscais, então ela precisa migrar para cadeias de produtos que se justifiquem em áreas pequenas. É por isso que ela se dá tão bem com o café. Quando você está numa área pequena, precisar agregar mais valor a seu produto. Isso vai ser agora obrigatório para se manter competitiva”, argumenta.

De acordo com o pesquisador da Esalq, o estudo foi baseado no Censo 2006 e outros dados complementares do IBGE, além de uma série de modelos econômicos para chegar na estimativa do PIB agropecuário, que é de R$ 250 bilhões.