Minas Gerais é o terceiro estado brasileiro com maior número de municípios com a presença de javalis, segundo o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). O animal exótico que tem se proliferado por todo país é considerado uma ameaça econômica, ambiental e social, uma vez que sua presença ameaça lavouras, nascentes e até pessoas, que também podem ser alvo de ataques.

Em todo estado, 198 cidades já registraram a presença do animal, sendo que 64 delas estão classificadas com prioridade extremamente alta para a prevenção, no aspecto ambiental. Ou seja, possuem áreas com flora e fauna mais sensíveis e espécies endêmicas ou ameaçadas de extinção. 

O crescimento descontrolado dos javalis levou, inclusive, o Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA) a ensinar aos caçadores legalizados técnicas de coleta e encaminhamento de amostras de sangue para que seja possível monitorar problemas sanitários que tragam risco à atividade pecuária. O órgão é executor da defesa sanitária animal em Minas e realiza treinamento sobre vigilância sorológica para Peste Suína Clássica (PSC).

Assessor de Assuntos Estratégicos da Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa), José Eduardo Ferreira da Silva explica que um grupo de trabalho já foi formado para debater formas de fortalecer o combate ao problema. 

Além da Seapa, participam das discussões o IMA, a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) e a Universidade Federal de Viçosa (UFV). “Estamos diante de uma praga. É um tipo de fauna exótica, para a qual não há predador natural, o que traz riscos para todos. Precisamos capacitar caçadores para que eles possam contribuir com o manejo da espécie, sem colocar em risco outros animais”, explica José Eduardo. 

Fatores biológicos

Para Rômulo Ribon, professor titular do Departamento de Biologia Animal da Universidade Federal de Viçosa (UFV), fatores biológicos podem explicar o crescimento acelerado da população de javalis em Minas. 

Segundo ele, a taxa de reprodução elevada, de até três ninhadas por ano com dez filhotes cada, é um dos agravantes. “É como se cada javali pudesse gerar 30 filhotes por ano, sendo que eles alcançam a idade fértil com apenas seis meses. Então, mesmo que tivéssemos predadores naturais, eles não conseguiriam controlar essa explosão”, relata Ribon.

A dieta onívora também contribui para tornar maior o problema, garante o biólogo. “Eles se alimentam tanto de vegetais quanto de ovos, portanto têm alimento em fartura e acabam se proliferando”, avalia o especialista. 

Ações

Integrante da coordenação de sanidade suídea da Gerência de Defesa Sanitária Animal do IMA, a veterinária Júnia Mafra explica que todas as amostras de sangue de javalis coletadas pelos manejadores e analisadas no Laboratório de Saúde Animal do instituto tiveram resultados negativos para a PSC.

No entanto, ela destaca que o monitoramento deve ser constante. “Outras doenças como a Peste Suína Africana (PSA) foram detectadas na Ásia e no Leste Europeu em javalis. Essas são doenças que podem ser transmitidas aos suínos domésticos e trazer embargos internacionais", alerta.

Desde 2015, o órgão realiza cursos junto a clubes de tiro para orientar caçadores sobre a vigilância da PSC, informando sobre as zoonoses que podem ser transmitidas e reforçando as diferenças entre os suídeos (suínos e javalis) e tayassuídeos (cateto e queixada). “O cateto e a queixada, por exemplo, são animais protegidos por lei e não podem ser confundidos com os javalis”, ressalta o veterinário Danilo Araújo, também servidor do instituto. 

Abate legalizado

Analista ambiental do Ibama, Junio Silva explica que o cadastro no Sistema de Informação de Manejo de Fauna (SIMAF) é fundamental para que o abate seja legalmente permitido. A autorização é emitida digitalmente e precisa ser renovada a cada três meses.

“Nesse cadastro, é preciso informar a documentação do manejador, o tipo de armamento utilizado e, ainda, os dados da propriedade. É importante ler atentamente as normas que regem a atividade e também estão disponíveis no site. O descumprimento dessas regras pode acarretar em autuações de até R$ 2 mil”, alerta.

As instruções para obtenção de licença para a posse do armamento podem ser acessadas no site do Exército Brasileiro. Os manejadores de javalis interessados em fazer o treinamento para vigilância da Peste Suína Clássica podem procurar um escritório do IMA pessoalmente ou acessar www.ima.mg.gov.br/atendimento/nossas-unidades

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